sábado, 15 de dezembro de 2012

Qualificando o Turismo de Observação de Aves na Região do Parque Nacional das Emas



Entre os dias de 30 de novembro a 02 dezembro e de 07 a 09/12 o Instituto Mamede de Pesquisa Ambiental e Ecoturismo em parceria com o Parque Nacional das Emas realizou o II Curso de Técnicas de Observação e Identificação de Aves do Parna das Emas e Entorno. Com uma área de quase 133 mil hectares, o Parque e seu entorno concentram significativa diversidade de aves do Cerrado brasileiro. Espécies endêmicas, raras e ameaçadas de extinção são encontradas com certa facilidade nessa Unidade de Conservação de proteção integral denominada Parque Nacional das Emas, mas que carinhosamente é referido apenas como “Emas” para os que o conhecem e que por ele se encantam. 

Como nem só de emas vive o Parque e sim de mais de 360 espécies de aves do Cerrado e de outros biomas que o contatam e o entremeiam, não resta dúvida que as aves constituem o grupo de vertebrados mais representativo de Emas e tem atraído observadores de várias partes do Brasil e do mundo. 
 
Dessa forma, o II Curso de Técnicas de Observação e Identificação de Aves do Parna das Emas e Entorno teve por objetivos qualificar os monitores ambientais que atuam na condução de visitantes do Parque, bem como instruir a comunidade e envolvê-la na observação de aves, educação ambiental e em ações de conservação da biodiversidade de forma geral.




Foram dois finais de semana de intensas atividades que envolveram teoria e muita prática de campo para melhor apreciação e reconhecimento das aves do Cerrado abrigadas no exuberante território de Emas. Sob a instrução da bióloga, pesquisadora e educadora ambiental Maristela Benites e os colaboradores André de Oliveira, Simone Mamede e Cintia Possas, os cursistas mergulharam no fascinante mundo das aves do Cerrado. Cores, sons, formas, silhuetas, enfim, as marcas ou sinais de campo ganhavam especial atenção e constituíam pistas essenciais para a “descoberta” do nome da ave observada.

Aula teórica com Maristela Benites
Meia-lua-do-cerrado (Melanopareia torquata)
As áreas abertas de Cerrado, fisionomias já escassas fora do Parque, foram priorizadas nas recorridas de campo, o que possibilitou o avistamento dos raros: papa-moscas-do-campo (Culicivora caudacuta), galito (Alectrurus tricolor) e tico-tico-mascarado (Coryphaspiza melanotis), além da corruíra-do-campo (Cistothorus platensis), mineirinho (Charitospiza eucosma), perdiz (Rhynchotus rufescens), os comumente encontrados ema (Rhea americana), cigarra-do-campo (Neothraupis fasciata), bandoleta (Cypsnagra hirundinacea), batuqueiro ou bico-de-pimenta (Saltatricula atricollis), patativa (Sporophila plumbea), caboclinho (Sporophila bouvreuil), tico-tico-do-campo (Ammodramus humeralis), canário-do-campo (Emberizoides herbicola) e do abundante e carismático joão-bobo (Nystalus chacuru). O despertar do dia ficou a cargo da caburé (Glaucidium brasilianum), udu-de-coroa-azul (Momotus momota), seguidos dos sons, em coro, do pássaro-preto (Gnorimopsar chopi). O som inconfundível da meia-lua-do-cerrado (Melanopareia torquata), espécie endêmica desse bioma, também marcou os horários crepusculares da manhã e tarde. No entorno do Parque, outras espécies não observadas em Emas foram vistas como: canário-do-brejo (Emberizoides ypiranganus), gavião-do-banhado (Circus buffoni), frango-d’água-azul (Porphyrio martinica) e sanã-carijó (Porzana albicollis), espécie que costuma ser mais ouvida do que vista.

 
O balanço do curso resultou em: 160 espécies observadas; um novo registro para a avifauna do Parque, o siriri-do-buriti ou siriri-de-peito-rajado (Tyrannopsis sulphurea); e mais de vinte pessoas que se tornaram e/ou continuaram admiradoras e comprometidas com a conservação e proteção da biodiversidade do Cerrado e de Emas. Importante estímulo também recebeu o Clube de Observadores de Aves do Parna das Emas e Entorno (COA Parna das Emas e Entorno) que hoje vai além dos limites político-geográficos da região.

A bióloga Maristela Benites enfatizou que a observação de aves atrai não apenas admiradores das aves, mas estimula o comportamento pró-conservacionista de todos os que se interessam pela biodiversidade, de tal modo que a atividade constitui apenas em caminho e porta que se abre para ações de conservação, conquista de novos olhares e reconhecimentoda rica biodiversidade que nos rodeia.


O curso contou com pessoas desde 09 até mais de 80 anos, provando que se trata de uma atividade aprazível, educativa e que não restringe público nem mesmo com relação à faixa etária.









O chapadão é sozinho - a largueza. O sol. O céu de não se querer ver. O verde carteado do grameal. As duras areias. (...). A diversos que passavam abandoados de araras - araral  conversantes. (...). O sertão é dentro da gente. Guimarães Rosa.





Com esta ação, o Instituto Mamede encerra as atividades de capacitação do ano de 2012 e nos vemos logo mais em 2013 com novas ações de qualificação e sensibilização voltadas à educação e conservação ambiental. Até logo!


 



Encontrando família, gênero e espécie a partir das marcas de campo

                                           Você já observou uma ave hoje?







Check list do Zé...










Siriri-do-buriti (Tyrannopsis sulphurea): novo registro para o Parque Nacional das Emas. Foto: Maristela Benites

domingo, 16 de setembro de 2012

Observando Aves na Patagônia, Região mais Austral do Planeta


Patagônia? Que lugar é este?

Como vamos falar sobre a Patagônia é importante que se saiba, ao menos superficialmente que região é esta. Foi difundida a partir das viagens de exploradores europeus no início do século XVI e uma das teorias para explicar a origem do nome é que a primeira impressão que esses viajantes tiveram da região é que se tratava de uma “Ilha de gigantes” – embora não separada do continente – porque, supostamente, seus primitivos habitantes tinham pés grandes. Assim, Patagonia derivaria do termo espanhol Patagón que significa pé grande. Outra corrente afirma que a verdadeira origem do nome decorre da expedição comandada pelo português Fernando de Magalhães no século XVI (1520), quando este se deparou com primitivos homens gigantes que habitavam a região, por isso denominados patagones. Porém acredita-se que tenha empregado o termo na forma de uma hipérbole, ou seja, utilizou a expressão para impressionar os europeus sobre sua importante expedição, algo que o exaltaria como herói valente e destemido. A Patagônia, portanto, é a região que descreve o cone meridional da América do Sul, com área de quase um milhão de quilômetros quadrados. A maior parte está na Argentina sendo compartilhada com o Chile. No extremo leste está o oceano Atlântico e a oeste o oceano Pacífico. Ainda em sua porção oeste é atravessada de norte a sul pela Cordilheira dos Andes e o centro é conhecido por Patagônia extra-andina exposta aos fortes ventos e à baixa disponibilidade de água corrente, com extensos campos com vegetação herbáceo-arbustiva (estepe patagônica) única capaz de resistir ao rigoroso clima. 

 
A Patagônia atrai visitantes do mundo inteiro desafiados pelas incríveis paisagens cênicas, muitas das quais isoladas do convívio humano. O clima ora é desértico ora oceânico, dependendo do lugar visitado, a cultura é especialmente singular, há períodos do ano com dias curtos ou longos demais, e um sem-fim de belezas que congregadas formatam um mosaico de inumeráveis oportunidades para contemplar a natureza e se encantar com ela. Por tais características, a Patagônia está entre os destinos favoritos de várias pessoas ao redor do mundo e permite a prática de diferentes modalidades de turismo em contato com a natureza.

Puerto Madryn, Argentina
Não é à toa que Darwin em sua passagem pela América do Sul se impressionou com a Patagônia e sua distinção. Mas uma de suas impressões e conclusões que chamam a atenção, foi quando, após fracassada a tentativa de FitzRoy (comandante do navio HMS Beagle) de civilizar os índios que foram levados para Inglaterra a fim de torná-los cristãos, cultos e "melhorar" a sociedade primitiva a que pertenciam, percebeu que os povos nativos deveriam manter-se isolados, livres da influência dos brancos sobre sua cultura para que assim pudessem continuar sua forma de adaptação ao mundo em que viviam. Para se ter ideia, em pleno frio patagônico, os índios viviam nus, dormiam diretamente sobre o solo e alguns grupos usavam, no máximo, peles de guanacos (um tipo de lhama) ou de leões-marinhos sobre os ombros, algo inadmissível e sobrenatural para os “civilizados” ingleses da tripulação do Beagle. 
Centro de Interpretação e Educação Ambiental de Rio Gallegos, Argentina

Bem, mas... E as Aves?
Mesmo em locais inóspitos, de clima muito frio e até em ambientes cobertos por neve, como em Ushuaia em final de inverno, período desta viagem, é possível observar a presença das aves e se encantar com esses fantásticos animais. É o turismo de observação de aves em ação na Patagônia!!
pato crestón
Se você fizer uma viagem de ônibus de longa distância como os 3 mil quilômetros entre Buenos Aires e Ushuaia que encaramos na Argentina poderá curtir da janela não apenas as paisagens, mas também a biodiversidade de flora e fauna acessíveis ao olhar atento. Certamente a viagem ficará longe de qualquer possibilidade de monotonia. Além disso, a cultura local também vai adquirindo outros matizes e provando a capacidade de adaptação humana e sua criatividade. Mas também é possível perceber como a natureza é forte ao se impor ante a presença humana. Ufa, ainda bem!
Para algumas espécies mantivemos os nomes populares locais sem a tradução para o português, principalmente para aquelas não encontradas no Brasil. Então vamos lá. No percurso observamos emas (Rhea americana) que aos poucos vão sendo substituídas por seus parentes patagônicos, os ñandús Pterocnemis pennata, igualmente grandes e exímios corredores. Aparecem também vários grupos de martineta-comun (Eudromia elegans) que lembram a nossa perdiz no Cerrado, mas com um elegante penacho e, claro, muitos patos, principalmente o ganso endêmico cauquén-comun (Chloephaga picta) que nos acompanha nas paisagens em que há presença de lagoas naturais, algumas delas temporárias como resultado do degelo, e açudes à beira da estrada. Como é comum encontrarmos patos na Patagônia, embora não exista associação direta entre a presença de patos e o nome dado à região! 
Cauquén comun (Chloephaga picta)
É tão comum a presença de representantes da família Anatidae que qualquer ave aquática que as pessoas veem na água ou próximo a ela, espontânea e automaticamente proferem a frase: - Olha ali um pato! Outras espécies também foram presentes na paisagem para além da janela, como o flamingo-chileno (Phoenicopterus chilensis), bandurría-comun (Theristicus melanopis) que difere da nossa curicaca (T. caudatus) pela presença de um colar acinzentado no peito, vocalização, barbela preta e outros aspectos, carcará (Caracara plancus), chimango (Milvago chimango), garça-branca-grande (Ardea alba), o pato-maicero ou marreca-parda (Anas georgica), o pato quetro-volador (Tachyeres patachonicus).

bandurría-comun (Theristicus melanopis)
À margem do Estreito de Magalhães, o gaivotão (Larus dominicanus) que será visto durante toda a viagem nos locais que dispõem de habitats aquáticos doces ou de água salgada.
Estreito de Magalhães
Parada na cidade de Trelew, – destino de muitos estudos paleontológicos e de descobertas de importantes fósseis de dinossauros – a lagoa da praça da cidade é um convite para a observação das dezenas de aves que lá se encontram como o gaivotão, a gaivota-maria-velha (Larus maculipennis), gaviota-gris (Larus scoresbii), biguás (Phalacrocorax brasilianus) e garça-branca-grande, foi tudo o que essa rápida passagem nos permitiu. 

 Biguá (Phalacrocorax brasilianus)
Ao desembarcarmos em Rio Gallegos visitamos o Estuário do Rio Gallegos, localizado na Reserva Natural Urbana da cidade. Os estuários são ecossistemas de alta produtividade ecológica, por isso muito particular e frágil, principalmente devido à pressão humana a que essas áreas estão sujeitas. É o lugar, em aspecto muito geral, onde o rio tem acesso ao mar, portanto há combinação local de água doce, matéria orgânica e até de água salgada na zona de contato com o mar. Na transição entre marés pode-se observar o quão importantes são esses ambientes em permitir alta riqueza de espécies que pode usufruir de refúgio e da abundante oferta de alimentos. Estima-se que mais de 20 mil aves praieiras neárticas e patagônicas ocupam este estuário todo ano, seja como residentes ou para destino de migração (http://www.whsrn.org/es/perfil-de-sitio/estuario-del-rio-gallegos). 

Ostreo austral (Haematopus leucopodus)
Dos poucos momentos em que estivemos no local, registramos bandos de gaivotão, quetro-volador, cauquén-comun, ostrero-austral (Haematopus leucopodus) e o registro muito interessante do playero-trinador (Numenius phaeopus) ou maçaricão, visitante que no inverno austral migra para as regiões árticas da América do Norte onde se reproduz. Alguns dos objetivos da Reserva Natural Urbana no Estuário do Rio Gallegos é assegurar a proteção dessas duas últimas espécies. O Clube de Observação de Aves de Rio Gallegos (COA Rio Gallegos) e a equipe do Centro de Interpretação Ambiental fazem observações frequentes nesse local, desenvolvem pesquisas e trabalhos de educação ambiental.

Playero trinador (Numenius phaeopus) no Estuário de Rio Gallegos, Argentina

Na área urbana afastada da costa encontramos de ocorrência comum ao Pantanal e Cerrado como o tico-tico (Zonotrichia capensis), conhecido localmente por chingolo, e o quero-quero (Vanellus chilensis). Todavia, na Patagônia até o quero-querar do quero-quero tem sotaque argentino! Claro, porque estamos falando de outra subespécie de Vanellus chilensis. Encontramos também o sabiá austral (Turdus falklandii), espécie muito comum na área urbana como nosso sabiá-laranjeira (T. rufiventris). 
Sabiá austral (Turdus falklandii)
A expectativa era grande para ver o mergulhão macá-tobiano (Podiceps gallardoi), uma das espécies-bandeira da região, que ao mesmo tempo é migratória e ameaçada, no entanto, a região de Rio Gallegos onde é comum sua presença no outono e inverno, nesse período (início da primavera) já retornou para a região andina onde se reproduz.
É surpreendente o interesse das pessoas pela observação de aves. Praticamente em cada cidade há um Clube de Observação de Aves. Em todas as cidades supracitadas havia um Clube. Pena que nossos compromissos não nos permitem estar na Feira de Aves da Sudamérica que acontece todo ano em San Martin de los Andes. Ocorrerá de 22 a 25 de novembro/2012.
Gaviota gris (Larus scuresbii)
A biodiversidade patagônica é muito rica e distinta, ao mesmo tempo em que apresenta espécies associadas a extremos gélidos, como a Antártida, apresenta também espécies andinas numa relação frequente com a Cordilheira dos Andes. Há muitas espécies migratórias constituindo-se em destino para várias espécies que fogem do inverno boreal e mesmo espécies que fazem migrações regionais. Pra quem não está acostumado com ventos de quase 80km/h como foi em Colorado Rivadavia e na passagem de balsa pelo Estreito de Magalhães, é preciso bastante determinação para sair atrás de registros de aves, mas a paixão como dizem: move... 
Transbordo no Estreito de Magalhães
Travessia do Estreito de Magalhães

Apesar da constatação de novidade em tudo, vimos as espécies mais comuns da região, mas a satisfação e felicidade é a mesma para as raras e ameaçadas de extinção. Se é ave e espécie nativa, então todo o encanto faz sentido!
A recém consolidada família de pato crestón (Lophonetta specularioides)
Continuamos nossa viagem até Ushuaia, no “Fim do Mundo”, onde outras espécies nos aguardam para serem observadas e admiradas! Seguimos agora em companhia de paisagens marcadas pela presença de lengas (Nothofagus pumilio), planta da família Fagaceae, comum para essa região. O caminho agora é de influência da Cordilheira dos Andes. Ah, e como muita neve!

E uma dica: se não souber o nome científico da espécie, tente por espécie australis ou patagonicus/patachonicus que já terá grande chance de acertar! Mas jamais abra mão da companhia de um bom guia de campo!
Chimango (Milvago chimango)

Tierra del Fuego, Argentina

Usando da sabedoria e beleza das poesias de Manoel de Barros, penso que essa viagem me socorreu a pássaros...

Chingolo (Zonotrichia capensis)

Tierra del Fuego, Chile

Tierra del Fuego, Argentina
Tierra del Fuego, Argentina

De bicicleta e observando aves também se chega ao Fim do Mundo!