quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Época de aleluias no Parque Nacional das Emas significa muita coisa!



Aleluias ou siriris são cupins que durante a fase reprodutiva, pode-se assim dizer, são alados. Chuva no Cerrado significa fartura de alimento, de aleluias e de vários outros insetos. No entanto, no Parque Nacional das Emas o que mais chama a atenção, sem dúvida, são as aleluias. Período de revoada é sinal de banquete certo para várias espécies: vertebrados (répteis, anfíbios, aves e mamíferos) ou invertebrados (larvas de vagalumes, por exemplo). As larvas de vagalumes (Pyrearinus termitilluminans) são responsáveis pelo show a parte nesse período do ano. 

E aves que quase não vê no chão como andorinhas e tesourinhas arriscam a aterrissagem, fugindo ao trivial, para saborear o banquete de aleluias em solo.
Para as aleluias esse período também significa renovação da vida: logo que perdem as asas é hora de procurar, ou melhor, construir novo refúgio. Nova moradia de cupins representa mais cupinzeiros surgindo e ampliando a cidade de cupins, e diga-se, obra-prima de permacultura! Impossível não se surpreender com a abundância de cupinzeiros no Parque, algo que, aliás, o caracteriza muito bem. Mas além de cupins e vagalumes, vários outros animais se refugiam nesses montículos de terra: aves como pica-pau-do-campo, tucano, periquitos, papagaios, corujas, se utilizam dos cupinzeiros para reprodução, formigas e outros invertebrados passeiam em busca de alimento e se refugiam neles também, tatus, tamanduá-bandeira, cuícas, lagartos também os utilizam como abrigo ou para se alimentar de ovos das aves que ali constróem ninho, como é o caso do teiú-de-cara-vermelha (Tupinambis duseni) observado dentro do ninho de psitacídeo (periquito ou papagaio) a mais de um metro do solo. Como um teiú daquele tamanho, forma e massa corpórea conseguiu escalar o cupinzeiro é mais um dos mistérios a poucos revelados. 
 












Três razões principais tornam os cupinzeiros tão atrativos à fauna: baixa ou nenhuma variação climática no seu interior, refúgio contra predadores e estratégia para obtenção de alimento. 

O dia amanhece na sede e é hora de ver a infinidade de asas de aleluias perdidas no solo ou outra superfície que as acomodem. Curicacas (Theristicus caudatus), pássaros-pretos (Gnorimopsar chopi), chopins (Molothrus bonariensis), chopins-picumã (Molothrus rufoaxillaris), suiriris (Tyrannus melancholicus e T. albogularis), tesourinhas (Tyrannus savana), pica-pau-do-campo (Colaptes campestris), bem-te-vis (Pitangus sulphuratus) e até a garça maria-faceira (Syrigma sibilatrix) aproveitam o banquete de aleluias, agora sem asas, que tentam construir nova colônia.


No campo, anu-coroca (Crotophaga major) surpreende os amigos observadores (Tietta Pivatto, André de Oliveira, Fernanda Reverditto, Roberta Coelho e Anne Zugman), ao se fartar com tantas aleluias sobre o cupinzeiro!
Se cupins são “bons” ou não para o ruralista e/ou para o agronegócio não há consenso entre proprietários, empresários e cientistas. Novas pesquisas indicam que a presença de cupinzeiros não está diretamente relacionada com a degradação e empobrecimento do solo (http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0100-204X2011001200016&script=sci_arttext), conforme se deduzia. Fato é que a presença de cupins no Cerrado em especial no Parque Nacional das Emas enche de encanto, assombro e felicidade cada visitante que por lá passa e percebe que a vida não se resume a coisas úteis e materiais, principalmente os capitalizados. 
Como diria Rubem Alves: que utilidade tem você observar a bioluminescência? Utilidade material talvez não tenha, mas isso nos enche de gratidão e felicidade e tem-se a certeza de que a vida vale a pena por causa daquele instante fugaz. A abundância de aleluias nos desafia a trocar a riqueza ilusória pela riqueza real que é a vida. Vai ver a explosão de vida reservada no Parque Nacional das Emas: patrimônio natural da humanidade!


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