segunda-feira, 9 de março de 2015

Parque Estadual das Várzeas do Rio Ivinhema/MS: quando águas e aves embalam a vida



Quando pensamos em abundância de águas no Mato Grosso do Sul, imediatamente nos vem à lembrança o Pantanal. Mas o prestigiado e majestoso Pantanal não é o único espaço abençoado pela riqueza de água por essas bandas do MS. Do lado de lá, isto é, partindo para o sentido sul do estado está o Parque Estadual das Várzeas do Rio Ivinhema (PEVRI) com seus mais de 70 mil hectares, o qual integra a Reserva da Biosfera da Mata Atlântica. Rios, canais e regatos anastomosados transportam vida, transportam beleza.
Éramos alguns dos integrantes do COA CGR (Clube de Observadores de Aves de Campo Grande – Hiroya Hattori, Maristela Benites, Gleidson Melo e Simone Mamede) que partimos em expedição ao Parque do Ivinhema, entre os dias 02 e 05 de março/2015.

Expectativa na estrada e olhos atentos a todos os movimentos de bicho. E que horas podemos começar nosso check list de aves? Dentro do Parque ou podemos incluir o entorno? Decidimos, por unanimidade, que a lista de espécies de aves deveria começar a partir do instante em que se percebia a proximidade com o Parque, ou seja, o entorno imediato que denotasse continuidade da paisagem e atribuísse abrangência regional. A exiguidade do tempo exigia muita atenção. Até as mutucas e os pernilongos podiam desfrutar um pouco mais da hematofagia até serem liquidados, ou não, quando permanecíamos estáticos para identificarmos qual ave estava no nosso campo focal; nisto os insetos, literalmente, faziam festa regada a sangue. O gestor do Parque justificava que se tratava de sangue novo e que aquele tipo de oportunidade era muito eventual na UC.
Ainda no primeiro dia, na verdade, na primeira manhã de observação em campo completamos 100 espécies registradas. Expectativa para saber qual seria a tal espécie. A sorte foi lançada. E quem foi a 100ª espécie observada?
Águia-pescadora? Gavião-belo? Gavião-do-banhado? Que nada! Foi outro tão admirável e tão dono do espaço aéreo quanto os demais citados: urubu-de-cabeça-preta! A comemoração foi aplaudida com muito riso e alegria pela equipe. Alegria, brisa leve e comunhão
foram sensações vivenciadas plenamente durante a viagem, além de ar puro, belas imagens e sons orquestrais.

Mas não foi só mansidão ou calmaria, presenciamos momentos de forte tensão. O MS por suas características físicas e geográficas é alvo de fortes e numerosas descargas elétricas que podem causar acidentes, atingindo pessoas, outros animais e/ou a vegetação. O tempo que anunciava chuva trouxe apenas raios e o fogo logo se apresentou. O pôr-do-sol agora apresentava matizes de amarelo, laranja, azul, violeta e vermelho que se misturavam à fumaça e fuligem. Vimos animais fugindo do fogo,
pelotões de gafanhotos pulando em sincronia impressionante a procura de vegetação fresca a salvo do fogo. Serpentes e pequenos vertebrados se deslocavam lado a lado ignorando totalmente a força e as implicações da cadeia alimentar. A brigada de incêndio improvisada para atender a ocorrência era formada de gente disposta e amante do Parque.
Eram quatro heróis que, a despeito das circunstâncias, conseguiram controlar o fogo e no outro dia pela manhã todos os focos haviam sido por eles combatidos. Cabe ressaltar que, em se tratando de matas, várzeas e campos úmidos a ordem é não deixar o fogo queimar, uma vez que a biodiversidade desses ambientes não está adaptada a tal evento.

Caboclinho-de-barriga-vermelha, macho (Sporophila hypoxantha)
Diferentemente das fisionomias de Cerrado, mesmo assim é preciso avaliar qual o momento certo para combater ou não o fogo.
Trilhas feitas de barco e percursos em meio aquático foram os principais caminhos que nos
levaram à descoberta de notáveis paisagens e seres vivos incríveis. Aves como caboclinho-de-barriga-vermelha, cardeal-do-banhado, joão-grilo, coleiro-do-brejo, carretão-do-brejo, surucuá-variado, garças e martins-pescadores nos acompanhavam nos percursos.
Cardeal-do-banhado (Amblyramphus holosericeus)

Quando a algazarra e agitação eram grandes, logo se podia esperar que um grupo de anus-corocas se manifestaria. Um curió, um tanto curioso, também se apresentou com seu belo canto e nos presenteou com sua presença por vários minutos. O saci até que tentamos encontrá-lo, mas ficou só no canto mesmo. Quem sabe na próxima oportunidade!
E o que dizer do rio Curupaí? Águas límpidas, mas de coloração própria, lembravam o rio Vermelho no Pantanal do Miranda. Quanta surpresa no Curupaí: anhumas, beija-flor-de-bico-curvo, gavião-preto, cervo-do-Pantanal e muitas plantas floridas. Quem aproveitou foi o beija-flor-de-bico-curvo, observado em mais de dezenas de indivíduos patrulhando o território e visitando as flores no estilo trap-line (a procura por alimento/néctar descreve uma rota linear de visitação). O Ivinhema nos levou até o grande rio Paraná, imenso em múltiplos aspectos. Incrível compreender quão intrincados e complexos são as interligações na natureza, quão interdependentes somos. Quantos dependem do rio Paraná para sobrevivência... Somos compelidos a nos responsabilizar pelas trilhas e caminhos que percorremos.
Rica biodiversidade, boa receptividade do gestor Reginaldo e equipe, instalações impecáveis, ótimas refeições preparadas pela Da. Nice e Jaqueline, apoio de campo do Sr. Chimarrão, Jhony e Antônio, tereré sempre pronto, tudo isso fez da viagem, mais que uma expedição, um encontro com as belezas naturais das Várzeas do Ivinhema.

As próximas expedições outros membros poderão participar.
Gratidão à equipe do Imasul/GUC e especialmente ao Reginaldo Oliveira que carinhosamente nos recebeu e nos acompanhou sempre que possível.
Aves observadas: 140 espécies, cujos nomes podem ser consultados em: http://www.taxeus.com.br/lista/5209?o=eodefmeesesaiucn#.VP95UrIAio0.email



Carcará (Caracara plancus)

Periquitão-maracanã (Psittacara leucophthalmus)
Surucuá-variado, macho (Trogon surrucura)
Suindara (Tyto furcata)
Quiriquiri (Falco sparverius)
Freirinha, fêmea (Arundinicola leucocephala)
Coruja-buraqueira (Athene cunicularia)
João-grilo (Synallaxis hypospodia)
Cervo-do-pantanal (Blastocerus dichotomus)
 



2 comentários:

  1. parabens pelo texto que nos lança as emoções sentidas pelos participantes!

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  2. Uma das funções de um parque é integrar homem e natureza, para nós foi uma satisfação recebe-los e ver esta integração acontecer de forma tão harmoniosa, as aves como que por sintonia apareciam conforme os visitantes as solicitavam, foi assim com Cardeal do banhado, Socó, Anhuma... Esperamos que essas visitas possam ocorrer mais vezes. Grande abraço

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